11/06/2010 - PIOR AGRESSÃO QUE EXISTE
A pior agressão é aquela que a pessoa não consegue se defender, seja porque é fraca, pega de surpresa, ou porque não consegue compreender o que esta acontecendo. Esta descrição se enquadra perfeitamente nos casos de violência doméstica: aquela pessoa que deveria lutar pela criança, incentivá-la, protegê-la e acolhê-la é a mesma que a agride com palavras ou atos. Agressões em sua maioria, tão sem sentido, que acabam comprometendo a avaliação que a criança tem dela mesma: se minha mãe diz que eu não presto, então não devo prestar mesmo! Se ela me bate é porque eu mereço!
E assim são criadas pessoas que se transformam em adultos que acreditam que a violência é benéfica para uma boa educação, ou seja, que vão perpetuar a cultura da violência. São adultos que não avaliaram as ações de pais, por isso continuam achando que o que eles fizeram é o certo. Estes sentimentos de raiva contra o pai que agrediu, de mágoa e o desejo de vingança, não são sequer percebidos conscientemente, porque estão reprimidos. Mas podem aparecer em alguns momentos da vida, em especial no relacionamento com os filhos. São estes adultos que não conseguem reconhecer seus atos violentos.
Maria Alice tinha duas filhas pequenas quando conheceu João Alberto; vinha de um casamento onde o marido, alcoolista agredia a família e negligenciava as filhas. João Alberto era o oposto, um amor, carinhoso, presente, confiável. Ele ajudou a criar as meninas como filhas, com carinho, mimos e broncas. Sempre foi um pai muito calmo, mais calmo até do que a mãe. As meninas o adoravam e o consideravam pai de verdade em contraposição ao pai biológico que as “abandonara”. Tudo ia bem até que um dia a filha mais velha enfrentou o pai, mostrando que o que ele dizia para elas fazerem e o que ele estava fazendo eram condutas contraditórias. O pai furioso foi para cima da filha e tentou enforcá-la. A menina e sua mãe foram pegas de surpresa, não esperavam uma reação tão extremada. Como só estavam os três em casa, como o marido era muito mais forte do que a esposa, ela começou a gritar para chamá-lo à consciência, e conseguiu. A menina apavorada entrou no quarto para olhar seu pescoço no espelho, e descobriu os dedos do padrasto marcados nela. Inconformada foi à sala mostrar para ele o que ele tinha feito, e para seu espanto, ele foi até o quarto verificar se ela não havia “pintado” de roxo as tais marcas.
Este fato acabou com o casamento dos pais, com a confiança que estas mulheres tinham nos homens, e com a auto-estima de todos. Ele não acredita até hoje que tenha sido capaz de fazer um ato daqueles.
Explosões como esta podem acontecer com qualquer pessoa, mas são mais comuns com pessoas que costumam negar o que estão sentindo, especialmente quando se trata de sentimentos “negativos” como raiva, mágoa, ou quando mexam com sentimen tos de inferioridade. Nestes casos, quando o desejo está tão escondido, a manifestação dele – nesta caso a agressão de fato é negada, porque só negando o ato, o sentimento poderá continuar escondido. Em outras palavras, se o pai percebesse que não admitia que a menina o contradissesse, que depois de tudo que tinha feito por ela ela não deveria se levantar contra ele, então ele poderia se controlar melhor e provavelmente eles teriam uma discussão acalorada, mas nada além disso.
Adultos agressores, quase sempre tem uma história de agressão, física ou psíquica, mas frequentemente não admitem que estas agressões sofridas (em geral na infância) tenham causado algum mau a elas. Podemos dizer que pessoas assim não conseguem perceber com clareza o que sentem em relação a episódios desta natureza, talvez porque não queiram culpabilizar as pessoas que elas mais amam: os pais. Se não percebem, fica “recalcado” e estas lembranças doloridas acabam vi ndo à tona quando menos se espera, e quando menos se deseja.
Diz Freud que nós repetimos o que não conseguimos compreender, e neste caso a agressão é uma repetição de algo que não foi entendido, nem engolido e por isso mesmo continua a machucar.
Dependendo do nível de dor ou da estrutura de personalidade, os adultos que foram machucados podem machucar e muito aqueles com quem convivem, e especialmente as crianças. Nem sempre estas pessoas tem noção do mau que causam.
Acho que este é o caso da procuradora que agrediu barbaramente aquela menininha. Um caso de falta de saúde mental.
Boa semana
http://www.doralorch.com.br/
NOTÍCIAS ANTERIORES